sábado, 5 de março de 2016

“LIEBESTOD”, TRISTÃO E ISOLDA, RICHARD WAGNER



“LIEBESTOD”,
  TRISTÃO E ISOLDA, RICHARD WAGNER


Isolda, não percebendo nada do que se passa à sua volta, fixa os olhos, com emoção crescente, no corpo de Tristão


ISOLDA


Tão terno e tão meigo,
esse sorriso! E esses olhos
que se abrem, tão doces!
Amigos, estão vendo?
Ou não podem ver
como ele irradia
sempre mais luz,
para tomar impulso,
rútilo de estrelas?
Não vêem?
E esse coração, o seu coração,
que se ergue e luta,
bate ritmicamente e lhe transborda
dentro do corpo?
E esses lábios que se abrem,
com ternura, com graça,
com um sopro de paz?
Vejam, amigos!
Não o sentem? Não o vêem?
Sou a única a ouvir
essa canção pródiga, silente,
de tantas maravilhas
esse queixume de alegria
que sabe dizer tudo tão bem,
doce paz reconquistada
nos ecos jazem fora dele,
me invadem,
saem daqui de baixo,
qual suave música
que vibra à minha volta?
Esses sons cada vez mais nítidos,
na onda que me amortalha,
são bolhas que carregam
as carícias do ar?
Ou são as vagas
de enfeitiçados eflúvios?
Inflam-se e inflam-se,
à minha volta, murmuram!
Preciso respirar?
Preciso escutar?
Preciso saborear,
afogar-me, diluir-me?
Em brisas embalsamadas
suavemente destruir-me?
Na plenitude da onda,
no ruído dos ecos,
no sopro absoluto
onde se exala o mundo,
abismar-me...
fundir-me...
nada mais ser...
alegria suprema... alegria!


Isolda, transfigurada, deita-se devagar sobre o corpo de Tristão e morre num êxtase orgasmático. Marcos abençoa os cadáveres. Cai o pano lentamente.



Tradução de Renata Cordeiro


Um comentário:

MARILENE disse...

Que voz!!! Belíssimo vídeo!
Intenso e belo o texto que traduziu. Bjs.