quinta-feira, 31 de julho de 2014

QUANDO EU MORRER, SONETO DE BERNARDINO COSTA LOPES



QUANDO EU MORRER, SONETO DE BERNARDINO COSTA LOPES

Quando eu morrer em véspera tranqüila,
Num pôr-do-sol de goivos e saudade,
Da velha igreja, que a Madona asila,
O sino grande a soluçar Trindade;

Quando o tufão do mal que me aniquila
Soprar minh´alma para a Eternidade,
Todas as flores dos jardins da vila,
Certo, eu terei da tua caridade.

E, já na sombra amiga do cipreste,
Há de haver uma lágrima piedosa,
A edênea gota, a pérola celeste,

Para quem desfolhou, terno, e a mãos cheias,
O lírio, o bogari, o cravo e a rosa
Pelas estradas brancas das aldeias.

sábado, 26 de julho de 2014

APAIXONADA, POEMA DE EDUARDO MARIA NUNES



APAIXONADA, POEMA DE EDUARDO MARIA NUNES

Rua abaixo, rua acima,
feliz, vivia na sua aldeia
uma, apaixonada, menina
de noite à luz da candeia
versos de amor escrevia.

Apaixonada pela poesia,
vivia, num lugar encantador
televisão, ainda, não havia
ouvia romances de amor
na rádio telefonia...
Até sempre, sorrindo,
ela disse adeus à sua aldeia
e foi atrás de um sonho lindo!

Blog “Nasci no Alentejo”

terça-feira, 22 de julho de 2014

FLOR NO GELO, SONETO DE AQUILES PORTO ALEGRE


FLOR NO GELO, SONETO DE AQUILES PORTO ALEGRE


O velho duque inglês um dia vira
próximo do castelo uma pastora
de olhos vivos, azuis, como a safira,
de saia curta e perna tentadora.

Nem se recorda de que é velho agora;
seu coração anseia, e só suspira
pela perna gentil e sedutora
que junto do castelo descobrira.

A paixão foi crescendo vivamente,
até que o velho inglês, como um demente,
a mão d´esposa dá-lhe o seu tesouro.

Uma noite ele, trêmulo, desperta...
Não vê ninguém, a alcova está deserta...
– Dorme a duquesa com um pagem louro.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

ENOJO, SONETO DE FAGUNDES VARELA




ENOJO, SONETO DE FAGUNDES VARELA

Vem despontando a aurora, a noite morre,
Desperta a mata virgem seus cantores,
Medroso o vento no arraial das flores
Mil beijos furta e suspirando corre.

Estende a névoa o manto e o val percorre,
Cruzam-se as borboletas de mil cores,
E as mansas rolas choram seus amores
Nas verdes balsas onde o orvalho escorre.

E pouco a pouco se esvaece a bruma,
Tudo se alegra à luz do céu risonho
E ao flóreo bafo o sertão perfuma.

Porém minh´alma triste e sem um sonho
Murmura olhando o prado, o rio, a espuma:
Como isto é pobre, insípido, enfadonho!

sábado, 12 de julho de 2014

SONETO DE ÁLVARES DE AZEVEDO



SONETO DE ÁLVARES DE AZEVEDO

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre um leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era virgem do mar, na escuna fria
Pela maré das águas embalada...
Era um anjo entre nuvens d´alvorada,
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era a mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos, as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti as noites eu velei chorando,
Por ti nos sonhos morrerei sorrindo.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

COROAI-ME DE ROSAS, ... POEMA DE RICARDO REIS (HETERÔNIMO DE FERNANDO PESSOA)




COROAI-ME DE ROSAS, ... POEMA DE RICARDO REIS (HETERÔNIMO DE FERNANDO PESSOA)

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade,
De rosas — rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

DEPOIS..., POEMA DE PAULO MAURICIO G. DA SILVA



DEPOIS..., POEMA DE PAULO MAURICIO G. DA SILVA



Para onde vão as folhas, depois das ramagens?...
E por quais ventos elas são sempre levadas,
Talvez cobrindo chãos de sombras arruinadas,
Trilhos mortos de fuliginosas paragens?...

Como as cinzas também, das paixões consumadas,
Levadas pelo vago sopro das aragens?...
Para quais horizontes, para quais paisagens?...
Bem como as borboletas, depois das floradas...

Para onde vão as nuvens, alvas passageiras?...
Pétalas ressequidas de tantas roseiras,
E as rosas também, depois que elas são beijadas?...

- Também irei, depois das ilusões primeiras,
Passadas as felicidades derradeiras...
Depois do teu adeus... Das tuas costas voltadas...