terça-feira, 29 de abril de 2014

A UMA CORTESÃ, SONETO DE J. EUSTACHIO D´AZEVEDO

Catherine Mc Cornack no filme "Dangerous Beauty"

A UMA CORTESÃ, SONETO DE J. EUSTACHIO D´AZEVEDO

A luz do teu olhar que audaz cintila,
iluminou minh´alma enregelada,
naquela noite olente e constelada
em que me viste, em que eu te vi, Dalila!

Tinhas da Vésper que no céu rutila
o fulgurante brilho e a graça iriada!...
E eu, ao te ver assim, bela, adorada,
oh! como te estimei, mulher d´argila!

No coração, porém, só tinhas... lodo!
O meu amor arrefeceu de todo...
E ao saber que, sem pejo, te vendias,

eu também te comprei! Paguei-te à vista
e saí enojado da conquista
trescalando ao perfume das orgias!

domingo, 27 de abril de 2014

VEM, SONETO DE ARTUR NABANTINO GONÇALVES DE AZEVEDO




VEM, SONETO DE ARTUR NABANTINO GONÇALVES DE AZEVEDO

Escrúpulos?... Escrúpulos!... Tolice!...
Corre aos meus braços! Vem! Não tenhas pejo!
Traz teu beijo ao encontro do meu beijo,
E deixa-os lá dizer que isto é doidice!

Não esperes o gelo da velhice,
Não sufoques o lúbrico desejo
Que nos teus olhos úmidos eu vejo!
Foges de mim?... Farias mal?... Quem disse?

Ora o dever! – o coração não deve!
O amor, se é verdadeiro, não ultraja
Nem mancha a fama embora alva de neve.

Vem!... que o teu sangue férvido reaja!
Amemo-nos, amor, que a vida é breve,
E outra vida melhor talvez não haja!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

NOITE DE INSÔNIA, POEMA DE EMÍLIO DE MENEZES



NOITE DE INSÔNIA, POEMA DE EMÍLIO DE MENEZES

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito, de Procusto!...

Louco e só! Desvairado! – A noite vai sem termo
E estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo
Este horrível temor de que não voltes mais!...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

REGRA TRÊS, CANÇÃO DE TOQUINHO



REGRA TRÊS, CANÇÃO DE TOQUINHO

Tantas você fez que ela cansou 
Porque você, rapaz
Abusou da regra três 
Onde menos vale mais
Da primeira vez ela chorou 
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes 
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança 
Porque o perdão também cansa de perdoar
Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai. 
Mas deixe a lâmpada acesa 
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto 
Porque você pode estar certo que vai chorar

terça-feira, 22 de abril de 2014

HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS..., POEMA DE ALPHONSUS GUIMARAENS



HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS..., POEMA DE ALPHONSUS GUIMARAENS

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: – “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria...”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: –“Por que não vieram juntos?”

quinta-feira, 17 de abril de 2014

DIÁLOGO AMOROSO




DIÁLOGO AMOROSO

Palavras inteiras!
Sem meias palavras
perguntas-me o que quero
e eu
digo-te tudo o que queres saber
Mas antes...engulo-te inteiro
Sem nada te dizer. 


@ Renata Cordeiro

quarta-feira, 16 de abril de 2014

HAICAIS, DE BASHÔ (1644-1694)




HAICAIS, DE BASHÔ (1644-1694)


Junto ao velho lago
Uma rã a preparar-se
E ploc dentro d´água

Catarata límpida
Nas vagas imaculadas
Lua do estio brilha

Desperta, desperta,
Tu serás a minha amiga
Feliz mariposa.

Ninguém, ninguém toma
Este caminho, a não ser
O sol-pôr do outono

Passa a primavera
As aves choram, são lágrimas
Os olhos dos peixes

Vem vento do rio
Com quimono de verão
Frescura da noite

Montes e jardins
Vão entrando nas moradas
Durante o verão

Retiro de inverno
Em cima do biombo d´ouro
Envelhecem pinhos

Crisântemos sempre,
Etéreos, adquirem corpo
Depois da tormenta

Eis um rouxinol
Atrás daquele chorão
Frente ao matagal.

Aroma de ameixa
E na hora o sol desponta

Caminho do monte


 tradução minha, Renata Cordeiro



terça-feira, 15 de abril de 2014

SONETO, DE JOSÉ MARIA DO AMARAL



SONETO, DE JOSÉ MARIA DO AMARAL

Passaste como a estrela matutina,
Que se some na luz pura da aurora;
Da vida só viveste aquela hora
Em que a existência em flor luz sem neblina.

Ver-te e perder-te! De tão triste sina
Não passa a mágoa em mim, antes piora;
Sem ver-te já, minh´alma inda te adora
Em triste culto que a saudade ensina.

Não vivo aqui; a vida em ti só ponho,
Na fé, de Cristo filha, a dor abrigo,
Futuro em ti no céu vejo risonho!

Neste mundo, meu mundo é teu jazigo;
Dizem que a vida é triste e falaz sonho;
Se é sonho a vida, sonharei contigo.



O Poesia em Língua Portuguesa recebeu este prêmio do Blog intervalo para café (http://intervaloparaumcafe.blogspot.com) e o oferece a quem passar por aqui. Muito grata, Jorge.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

FLORES DE INVERNO, POEMA DE MURILO SALDANHA E CHARLYANE MIRIELLE



FLORES DE INVERNO, POEMA DE MURILO SALDANHA E CHARLYANE MIRIELLE


Em um inverno solitário, porém não distante
Dentre os pequenos flocos da neve gelada,
Uma belíssima flor de luz irradiante,
Surgiu como milagre na nevoada.

Como ela era linda, toda colorida!
Pintada às tintas da cor aquarela!
Repleta de alegria, paz e de vida,
Era admirável com cores tão belas.
Seu pai o inverno, vendo a formosura,
Tomou-a na mão, chamando-a Florzinha,
E à Primavera, com muita ternura
Entregou-a, pois lá não estaria sozinha
Florzinha cresceu dentre as margaridas,
Era a preferida da Mãe Natureza.
Quanto mais suas folhas ficavam crescidas,
Mais imensurável era sua beleza.

Tinha nos olhos a cor da esperança
E em seu sorriso, brilho e magia.
Brincava de roda com a brisa criança
e quando falava, brotava poesia...

E era assim que Florzinha vivia,
Esbanjava alegria por onde passava
Amizade era ouro e ela sabia
E como tesouro, assim a guardava..

Contava seus sonhos a um beija-flor
Pensando no quanto ele espalharia
Versejando a chegada de um grande amor
Nos desejos guardados em cada poesia...

Florzinha mais bela, anjo de candura
Planta a amizade em versos de carmim
Sua beleza é tanta, assim como a ternura
Que espalha rimas doces por todo nosso jardim...



Orkutei.com.br


sábado, 12 de abril de 2014

ENCOSTA-TE A MIM, CANÇÃO DE JORGE PALMA



ENCOSTA-TE A MIM, CANÇÃO DE JORGE PALMA

Encosta-te a mim,
Nós já vivemos cem mil anos.
Encosta-te a mim,
Talvez eu esteja a exagerar.
Encosta-te a mim,
Dá cabo dos teus desenganos
Não queiras ver quem eu não sou,
Deixa-me chegar.

Chegada da guerra,
Fiz tudo p´ra sobreviver, em nome da terra,
No fundo p´ra te merecer
Recebe-me bem,
Não desencantes os meus passos
Faz de mim o teu herói,
Não quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
Estou a partilhar contigo
O que não vivi, hei-de inventar contigo
Sei que não sei
Às vezes entender o teu olhar
Mas quero-te bem,
Encosta-te a mim.

Encosta-te a mim,
Desatinamos tantas vezes.
Vizinha de mim,
Deixa ser meu o teu quintal,
Recebe esta pomba que não está armadilhada
Foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada
Porque arrasei o que não quis
Em nome da estrada, onde só quero ser feliz.
Enrosca-te a mim,
Vai desarmar a flor queimada,
Vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi,
Estou a partilhar contigo, e o que não vivi,
Um dia hei-de inventar contigo
Sei que não sei, às vezes entender o teu olhar,
Mas quero-te bem.

Encosta-te a mim
Encosta-te a mim
Quero-te bem.
Encosta-te a mim.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

MULHER, VOU DIZER QUANTO EU TE AMO, CANÇÃO DE CHICO BUARQUE




MULHER, VOU DIZER QUANTO EU TE AMO, CANÇÃO DE CHICO BUARQUE

Mulher, vou dizer quanto eu te amo
Cantando a flor
Que nós plantamos
Que veio a tempo
Nesse tempo que carece
Dum carinho, duma prece
Dum sorriso, dum encanto
Mulher, imagina o nosso espanto
Ao ver a flor
Que cresceu tanto
Pois no silêncio mentiroso
Tão zeloso dos enganos
Há de ser pura
Como o grito mais profano
Como a graça do perdão
E que ela faça vir o dia
Dia a dia mais feliz
E seja da alegria
Sempre uma aprendiz
Eu te repito
Este meu canto de louvor
Ao fruto mais bendito
Desse nosso amor

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O PESO DE HAVER O MUNDO, POEMA INÉDITO DE FERNANDO PESSOA




O PESO DE HAVER O MUNDO, POEMA INÉDITO DE FERNANDO PESSOA

Passa no sopro da aragem
Que um momento o levantou
Um vago anseio de viagem
Que o coração me toldou.

Será que em seu movimento
A brisa lembre a partida,
Ou que a largueza do vento
Lembre o ar livre da ida?

Não sei, mas subitamente
Sinto a tristeza de estar
O sonho triste que há rente
Entre sonhar e sonhar.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

DESENCANTO, POEMA DE MANUEL BANDEIRA

Tears, por Neitin

DESENCANTO, POEMA DE MANUEL BANDEIRA

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é de sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

_ Eu faço versos como quem morre.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

SONETO, DE JOSÉ DA NATIVIDADE SALDANHA

                              




                                               À sombra deste cedro venerando
                                               Momentos mil gozaste encantadores...
                                               Aqui mesmo sentado entre os verdores
                                               Te achou mil vezes Pedro suspirando...

                                               Parece-me que estou ‘inda escutando
                                               Teus suspiros, teus ais e teus clamores...
                                               Parece-me que a fonte dos Amores
                                               Inda está de queixosa murmurando!...

                                               Aqui viveu Ignez!... E reclinada
                                               À borda d´esta fonte clara e pura,
                                               Foi, que horrível memória! traspassada!

                                               Mortais, gemei de mágoa e de ternura;
                                               Nesta rara beleza, não manchada,
                                               Foi culpa amor, foi crime a formosura....



domingo, 6 de abril de 2014

MULHERES (EXCERTO), POEMA DE ANTÓNIO LEITÃO



MULHERES (EXCERTO), POEMA DE ANTÓNIO LEITÃO

Mulheres com seios
de polpa madura:
são carne, são leite,
primeira fartura?

Quem chupa morangos
mordendo mamilos
tem lebres nos olhos,
nos dedos esquilos.

[...]
Mulheres de carne,
mulheres de plástico,
mulheres de cera,
de gesso, de elástico,

mulheres vividas,
deitadas, de joelhos,
dançando, chorando
comendo os espelhos

sábado, 5 de abril de 2014

AMOR E ROSAS, POEMA DE JOÃO RIBEIRO FERNANDES


               AMOR E ROSAS, POEMA DE JOÃO RIBEIRO FERNANDES


Um ano agora faz que em minha casa estavas,
Em meu pobre jardim rosas brancas havia.
Por desejá-las, tu nos pés te alevantavas
Para a rosa colher que mais alto floria.

Embalde! pois que a tanta altura não chegavas!
Para ajudar-te fui, e quando o braço erguia
E erguia a mão buscando a flor que desejavas,
Do teu olhar gelou-me a constante ironia.

Nesse momento, eu tremo, e o galho me escapando
Dispersa pelo espaço as desfolhadas flores,
Que te vieram cobrir a fronte compungida.

       Não é muito, senhora, (eu te disse) atentando
Que quem amor nos dá partido em muitas dores
Uma rosa receba em pétalas partida.  

      

sexta-feira, 4 de abril de 2014

ASPIRAÇÕES, POEMA DE JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA


       ASPIRAÇÕES, POEMA DE JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA


Quando eu morrer, ninguém venha chorar-me:
Lancem meu corpo à solidão sem termos.
Eu amo aqueles céus, aqueles ermos,
Onde a tristeza Deus vem consolar-me!

Lá, sinto ainda est´alma esvoaçar-me
Eterizada, e eu sonho a renascermos;
Eu e ela, ambos sós, ambos enfermos,
Eu morto já, e ela a despertar-me!

Lá fico aragem, folha, passarinho,
Lá me transforma em eco a solidão,
E a natureza inteira abre-me o ninho.

Oh! Deus de amor! oh! Deus da Criação!
Prende minha alma aos musgos do caminho,
Derrete-me no espaço o coração!...