segunda-feira, 26 de maio de 2014

SALOMÉ, POEMA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Gustave Moreau, Salomé, 1876

SALOMÉ, POEMA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Insônia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombrias fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro!... A minha Alma parou...
E o seu corpo resvala a projetar estátuas...

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar – há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...


3 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

26/05/14, SALOMÉ, POEMA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO.
Renata Cordeiro

Fernando Santos (Chana) disse...

Belo poema...Espectacular....
Cumprimentos

PAULO TAMBURRO. disse...

Olá RENATA,

"E o seu corpo resvala a projetar estátuas...", é absolutamente, definitivo.

Escolha excelente!

Um abração carioca.