sábado, 1 de março de 2014

A LUA DE LONDRES, POEMA DE JOÃO DE LEMOS





 A LUA DE LONDRES, POEMA DE JOÃO DE LEMOS

É noite. O astro saudoso
rompe a custo um plúmbeo céu,
tolda-lhe o rosto formoso
alvacento, húmido véu,
traz perdida a cor de prata,
nas águas não se retrata,
não beija no campo a flor,
não traz cortejo de estrelas,
não fala de amor às belas,
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos
onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
das praias de além do mar?
Foi na terra tua amada,
nessa terra tão banhada
por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
na pátria dos meus amores,
pátria do meu coração!

Oh! que foi!... Deixaste o brilho
nos montes de Portugal,
lá onde nasce o tomilho,
onde há fontes de cristal;
lá onde viceja a rosa,
onde a leve mariposa
se espaneja à luz do Sol;
lá onde Deus concedera
que em noite de Primavera
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas
talvez há pouco o país
onde do bosque as madeixas
já têm um flóreo matiz;
amaste do ar a doçura,
do azul e formosura,
das águas o suspirar.
Como hás-de agora entre gelos
dardejar teus raios belos,
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
do Mondego os salgueirais;
quem andou por Tejo acima,
por cima dos seus cristais;
quem foi ao meu pátrio Douro
sobre fina areia de ouro
raios de prata esparzir
não pode amar outra terra
nem sob o céu de Inglaterra
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
tens aqui; mas Deus igual
não quis dar-lhe essa lindeza
do teu e meu Portugal.
Aqui, a indústria e as artes;
além, de todas as partes,
a natureza sem véu;
aqui, ouro e pedrarias,
ruas mil, mil arcarias;
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
estátuas, praças sem fim
retalham, cobrem o solo,
mas não me encantam a mim.
Na minha pátria, uma aldeia,
por noites de lua cheia,
é tão bela e tão feliz!...
Amo as casinhas da serra
coa Lua da minha terra,
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
padecemos igual dor;
temos a mesma saudade,
sentimos o mesmo amor.
Em Portugal, o teu rosto
de riso e luz é composto;
aqui, triste e sem clarão.
Eu, lá, sinto-me contente;
aqui, lembrança pungente
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
voltemos aos puros céus.
Leva-me, ó Lua, contigo,
preso num raio dos teus.
Voltemos ambos, voltemos,
que nem eu nem tu podemos
aqui ser quais Deus nos fez;
terás brilho, eu terei vida,
eu já livre e tu despida
das nuvens do céu inglês.

4 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

01/03/14, A LUA DE LONDRES, do poeta português João de Lemos.
Renata Cordeiro

Alexandrino Sousa disse...

Olá Renata,

quantas vezes no final do dia, olhando o céu, "falamos" com a lua, segredamos e sabemos que ela nos compreende...
gostei do texto


Beijinho
Alex

Luconi Marcia Maria disse...

Estou entrando em tua casinha, venho devagarinho, abrindo os armários e lendo textos lindos, li algumas postagens muito lindas, esta última eu deixo meu comentário, aliás eu sou fã da lua, com seu mistério, inatingível, sempre companheira noturna de tantos desabafos. João Lemos foi muito feliz ao fazer este poema, para se ler e reler, agora a música é linda, fiquei a escutar, beijos Luconi

Evanir disse...

Aqui tenho vários amigos e amigas.
Hoje fui convidada a conhecer seu blog através de uma grande amiga de Portugal.
O poema aqui postado é maravilhoso
e falando um pouco de mim.
Eu amo poesia e vejo em Portugal uma massa linda de poetas e poetisas.
Me alegrei em conhecer seu blog acolhedor .
E tomei a liberdade de tornar - sua seguidora.
Um abraço carinhoso.
Evanir.