terça-feira, 29 de junho de 2010

NUNCA DATES OS TEUS POEMAS*******************



NUNCA DATES OS TEUS POEMAS*******************

Mário Quintana

Um poema



Não pertence ao Tempo...



Em seu país estranho.



Se existe hora é sempre a hora extrema.



Quando o Anjo Azrael nos estende ao sedento



Lábio o cálice inextinguível.



O que tu fazes hoje é o mesmo poema.



Que fizeste em menino.



E o mesmo que,



Depois, que tu te fores



Alguém lerá baixinho e comovidamente,



A vivê-lo de novo.



A esse alguém



Que talvez nem tenha ainda nascido,



Dedica pois, teus poemas,



Não os dates porém



As almas não entendem isso!...








sábado, 26 de junho de 2010

TERCEIRA CANÇÃO MORTA************************





TERCEIRA CANÇÃO MORTA********************



Fernando Pessoa (1888-1935)



Amas-me? É algo sonhado,
Não por amor...
Um nada... O amor realizado
É só dor.

Faz de mim o teu amante,
Não quem eu sou.
O dia, se lindo o sonhou,
É radiante.

Seja eu triste ou feio – é o negror...
E essa sombria,
Estada, é para que o dia
Te dê frescor.



Mensagens de Amor



Três Canções Mortas*

@ Trad. do francês pela Renata Cordeiro




sexta-feira, 25 de junho de 2010

ANJOS DO CÉU************************************


ANJOS DO CÉU************************
Álvares de Azevedo



As ondas são anjos que dormem no mar,

Que tremem, palpitam, banhados de luz…

São anjos que dormem, a rir e sonhar

E em leito d’escuma revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua

Seus raios incertos tremer, pratear,

E a trança luzente da nuvem flutua,

As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham - e o vento dos céus

Vem tépido à noite nos seios beijar!

São meigos anjinhos, são filhos de Deus,

Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram,

São puros fervores de ventos e mar:

São beijos que queimam… e as noites deliram,

E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor

Os ventos e vagas gemer, palpitar,

Por que não consentes, num beijo de amor

Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?

Mensagens de Amor



terça-feira, 22 de junho de 2010

VIAGEM AO CORPO DA MULHER AMADA*********






VIAGEM AO CORPO DA MULHER AMADA**********
Pedro Paulo da Gama Bentes









Quero no teu corpo, amada viajar!


Como um andarilho apaixonado,


Que chegando ao paraíso desejado,


Pode nesta doce geografia descansar.




Palmilhar florestas, vales e montes!


Com a bússola do desejo e da paixão,


E nesta louca e amorosa exploração,


Chegar sôfrego à mais cálida das fontes.




E o ouvido nas tuas coxas, colado...


Sentindo o palpitar e o calor!


Do teu desejo a pulsar ritmado...




Como música eu escuto o coração:


Que diz: -Sim, continue, não pare, amor...


Embora teus lábios ofegantes digam não...



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domingo, 20 de junho de 2010

PAZ DO MEU AMOR*****************************


PAZ DO MEU AMOR

Taiguara



Você é isso,

Uma beleza imensa,

Toda recompensa de um amor sem fim.

Você é isso,

Uma nuvem calma

No céu de minh'alma,

É ternura em mim.

Você é isso,

Estrela matutina,

Luz que descortina

Um mundo encantador.

Você é isso,

Parto de ternura,

Lágrima que é pura,

Paz do meu amor.

NÃO MALDIGA A ESCURIDÃO...




sábado, 19 de junho de 2010

CINCO HORAS*************************






CINCO HORAS*************************

Mário de Sá Carneiro

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendo cigarros,
- Pois há um ano que fumo -
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente...)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

E o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...).

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
- Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passe em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
P'ra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

- Cafés da minha preguiça,
Sois hoje - que galardão! -
Todo o meu campo de acção
E toda a minha cobiça.

Mensagens de Amor