domingo, 7 de fevereiro de 2010

CÂNTICO NEGRO * JOSÉ RÉGIO




CÂNTICO NEGRO

José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom se eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui"!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: "vem por aqui"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide!

tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

Sei que não vou por aí!

Belas Mulheres



10 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

São Paulo 07/02/2010 Cântico Negro + Gladiador.
Renata

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Para os todos enfim compreendam a a beleza e a importância da arte no mundo. Não é ostentação.
Que reflitam e parem de queixas infundadas e de apagar posts ou mudar fotos de posts depois que recebem um comentário.
Este poema é muito importante. Fez a cabeça de muitas pessoas na minha geração e todas para o bom sentido.
Boa domingo e bom começo de semana com Paz e Amor, pelo Amor de Deus.
Beijos

Wanderley Elian Lima disse...

Olá minha amiga
Tem hora que realmente dá vontade de ir por aí sem rumo a procura de nada. "Há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.".
Beijos

Marcos Andrade disse...

Poema lindo, Rê: não conhecia esse poema do Régio.

Lindíssimo!

Parabéns pela escolha.

Beijos!

Sonhadora disse...

Minha querida Renata
Belissimo poema de José Régio.
adorei o post.

beijinhos com carinho
Sonhadira

Daniel Costa disse...

Renata

O "Cântico Negro", de José Régio, é o meu poema de eleição, ouvi-lo, via televisão como eu ouvi, pelo fim dos anos cinquenta, declamado por esse fabuloso artista, João Vilarett é algo inesquecível. Tenho a versão, na minha discografia. Não me cansei e li aqui com muito agrado, como sempre.

Uma vez, que não estás a dispôr de Mail, deixo aqui o meu desejo que a disposição optimista continue a ser a tua grande aliada e mais uma vez fico grato, pelo carinho que sempre me proporcionas e que desejo retribuir, como?
Com a ternura de um beijo na testa.
Daniel

Ilhados Aqui disse...

atualizei o http://ilhadosaqui.blogspot.com/. Abraços

Marta disse...

Uma grande decisão...há penhascos, ventos fortes, mas aprender e voltar ao ponto de partida...nem todos conseguem..
Boa escolha...
Beijos e abraços
Marta

José disse...

Olá Renata,

Poesia em lingúa portuguesa
de poetas de outros tempos
venha e tenha a certeza
que vai passar bons momentos

Tem aqui tudo o que precisa
e tudo nos lugares certos
tem uma grande poetisa
nos recebe de braços abertos

Um beijinho, José

Joe disse...

Só agora reparei que tinha aqui este poema. É um dos mais bem escritos (e declamados) que tenho visto em português. Obrigado pela visita ao meu blog e pelo poema lá deixado, e obrigado por me lembrar deste de José Régio!