sexta-feira, 30 de outubro de 2009

FELICIDADE, POEMA DE MANOEL BANDEIRA, QUE EU DEDICO À MARTA



FELICIDADE

Manoel Bandeira


A doce tarde morre. E tão mansa

Ela esmorece,

Tão lentamente no céu de prece,

Que assim parece, toda repouso,

Como um suspiro de extinto gozo

De uma profunda, longa esperança

Que, enfim cumprida, morre, descansa…

E enquanto a mansa tarde agoniza,

Por entre a névoa fria do mar

Toda minh´alma foge na brisa:

Tenho vontade de me matar!

Oh, ter vontade de se matar…

Bem sei é cousa que não se diz,

Que mais a vida me pode dar?

Sou tão feliz!

— Vem, noite mansa…

Paix.....Amour....Respect

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

SONETO DA SAUDADE, POEMA DE GUIMARÃES ROSA, QUE EU DEDICO À MARTA



SONETO DA SAUDADE
Guimarães Rosa

Quando sentires a saudade retroar
Fecha teus olhos e verá o meu sorriso.
E eternamente te direi a sussurrar...
O nosso amor a cada instante está mais vivo!


Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E te expressar que esse amor em nós ungido
Suportará toda distância sem problemas...


Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão


Lembrar-te-ás toda a ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos...
Nem a distância apaga a chama da paixão


terça-feira, 27 de outubro de 2009

PRIMEIRA IMAGEM, UM POEMA DE ANA LUISA AMARAL


PRIMEIRA IMAGEM

Um poema de Ana Luisa Amaral

Numa tarde de sol,
dispôs-se no bordado e a bordar.
É que a luz da varanda era tão forte
que os olhos se detinham,
implodindo.
“Um sonho”, desejara.
E alguém, sorrindo,
Ientamente afastou-se,
monte acima.


Foto de Paulo Penicheiro "Tarde Calma" (Olhares)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

MESTRE, POEMA DE FERNANDO PESSOA, HETERÔNIMO RICARDO REIS


MESTRE
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


Mestre, são plácidas

Todas as horas

Que nós perdemos,

Se no perdê-las,

Qual numa jarra,

Nós pomos flores.

Não há tristezas

Nem alegrias

Em nossa vida.

Assim saibamos,

Sábios incautos,

Não a viver,

Mas decorrê-la,

Tranquilos, plácidos,

Lendo as crianças

Por nossas mestras,

E os olhos cheios

De Natureza ...

À beira-rio,

À beira-estrada,

Conforme calha,

Sempre no mesmo

Leve descanso

De estar vivendo.

O tempo passa,

Não nos diz nada.

Envelhecemos.

Saibamos, quase

Maliciosos,

Sentir-nos ir.

Não vale a pena

Fazer um gesto.

Não se resiste

Ao deus atroz

Que os próprios filhos

Devora sempre.

Colhamos flores.

Molhemos leves

As nossas mãos

Nos rios calmos,

Para aprendermos

Calma também.

Girassóis sempre

Fitando o sol,

Da vida iremos

Tranquilos,tendo

Nem o remorso

De ter vivido

D.M Graphics


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

LADY DE SHALOTT


Lady of Shalott, John W. Waterhouse, London's Tate Gallery




LADY DE SHALOTT



De ambos os lados do rio há

Grandes campos de cevada e de centeio

Que cobrem a planície e alcançam o céu

E em meio ao campo há uma estrada

Para a Camelot de muitas torres

As pessoas vão para cima e para baixo

Contemplando os lírios que flutuam

Há uma ilha mais abaixo

A ilha de Shalott

Salgueiros embranquecem álamos tremem

Ligeiras brisas crepúsculo e calafrio

As águas correm eternamente

Pela ilha no rio

Que desemboca em Camelot

Quatro paredes cinzentas e quatro torres cinzentas

Num espaço de flores

A ilha silenciosa cobre com sombras

Lady de Shalott

Só há camponeses que trabalham cedo

Por entre a cevada a ser ceifada

Ecoa a suave canção alegremente

Que vem do rio onde venta

Até a elevada Camelot

E ao luar o ceifeiro cansado

Empilhando maços em grandes amontoados

Escuta e sussurra "esta é fada"

Lady de Shalott

Na torre ela tece dia e noite

Uma teia mágica com cores vistosas

Mas ouve um sussurro que diz

Que a maldição cairá sobre ela se continuar

Olhando para baixo, para Camelot

Não sabe que a maldição é essa

E assim tece continuamente

E pouco cuidado tem ela

Lady de Shalott

Mirando-se num espelho cristalino

Que fica à sua frente o ano todo

Sombras do mundo aparecem

Através do espelho ela vê a estrada

Vê o vento soprar sobre Camelot

E às vezes através do espelho

Vê os cavaleiros trotarem aos pares

Ela não tem cavaleiro leal e verdadeiro

Lady de Shalott

Mesmo tecendo ela contempla

As mágicas visões do espelho

Muitas vezes pelas noites silenciosas

Vê um funeral com pompas e luzes

E a música volta-se para Camelot

E quando a Lua brilha no alto

Dois jovens amantes enfim se casam

"Estou meio farta de sombras" diz

Lady de Shalott

Vê da sua torre numa disparada

Um cavalo entre os maços de cevada

O sol arde ofuscando as folhas

E queima as canelas despudoradas

Do ousado Sir Lancelot

É um cavaleiro que eternamente se ajoelha

Para uma senhora em seu escudo,

Que brilha no campo amarelo

Ao lado da remota Shalott

Seus olhos claros brilharam à luz do sol

Com cascos polidos seu cavalo de guerra trilhou

Debaixo do elmo esvoaçavam da cor do carvão

Seus cachos negros enquanto cavalgava

À medida que ia para Camelot

Na margem do rio

Ele apareceu no espelho cristalino

"Tirra lirra"

Cantou Sir Lancelot

Ela parou de tecer largou o tear

Deu três passos pelo quarto

Viu o lírio na água florescer

Viu o elmo e a plumagem

E se voltou para Camelot

Voou o tear flutuando ao longe

O espelho se quebrou ao meio

"A maldição caiu sobre mim"

chorou Lady de Shalott

O tempestuoso vento leste uivava

Os bosques amarelos empalideciam

Nas margens do rio as ondas se revolviam

Do céu desabou a chuva fortemente

Sobre a dominada Camelot

Ela desceu e encontrou um barco

Debaixo de um flutuante salgueiro partido

E na proa deixou escrito

Lady de Shalott

Descendo o extenso e turvo rio

Como algum vidente em transe

Vendo toda a sua miséria

Com o rosto paralisado

Ela olhou para Camelot

E ao fim do dia

Soltou as correntes e se deitou

O amplo rio levou para longe

Lady de Shalott

Ouvindo um hino pesaroso sagrado

Muito alto cantou com voz humilde

E o sangue começou a congelar

Os seus olhos ficaram escuros

Voltados para a elevada Camelot

Antes que com a maré alcançasse

A primeira casa da costa

Ainda cantando morreu

Lady de Shalott

Sob a torre e a sacada

Do muro do jardim e do balcão

Qual vulto cintilante ela flutuou

Pálida morta entre altas casas

O silêncio pairou em Camelot

Ao distante cais todos acorreram

Cavaleiro e burguês lorde e dama

E em volta da proa o seu nome leram

"Lady de Shalott"

Quem é esta? O que faz aqui?

Ali perto ficava o palácio iluminado

E nele cessou o som da real celebração

Os bravos homens tiveram medo

Todos os Cavaleiros de Camelot

Mas Lancelot refletiu por um tempo

E disse "que rosto lindo!

Deus misericordioso, abençoai

Lady de Shalott!"



TRADUÇÃO DE RENATA CORDEIRO


***


Lady de Shalott é um poema ou balada vitoriana, escrito pelo inglês Alfred Tennyson (1809-1892). Assim como seus primeiros poemas – Sir Lancelot e a Rainha Guinevere e Galahad, Lady de Shalott reformula a temática arturiana, baseada nas fontes medievais. Em 1896, o poema inspirou John William Waterhouse a pintar o quatro homônimo acima, representando a personagem no seu barco funerário à deriva pelo rio Tamisa. (Ele pintaria mais 3 quadros sobre Lady de Shalott). Na história, Lady de Shalott é uma dama que vive sozinha numa torre, na ilha de Shalott. A dama foi amaldiçoada: se ela olhar diretamente para Camelot, algo de terrível acontecerá. Então ela vê o mundo por um espelho, só. Um dia ela vê Lancelot, cantarolando próximo à sua torre, e mais do que nunca, ela percebe o quanto está perdendo na vida, vendo tudo e todos por sombras ou reflexos. Então, olha para ele - e o seu espelho se quebra, e a maldição começa. Sai da torre, vestida de branco, e no seu barco desce pelo rio, cantando uma canção triste, e vai morrendo aos poucos.