segunda-feira, 31 de agosto de 2009

AS SOMBRAS DA VINHA, 27, POEMA DE MARIA CAPRI



AS SOMBRAS DA VINHA
Maria Carpi

27


O percurso de um corpo
para outro são ramas
que se cruzam num toldo
de sombras e zumbidos.
São vides que se embrenham
na cisterna dos frutos.
O estalo do fogo na seiva.
O estalo da seiva nos ossos.






JULES MASSENET, MEDITAÇÃO DE THAIS. UM POEMA DE AMADEU BAPTISTA


Não há coisas absolutamente vivas

Como não há coisas absolutamente mortas.

Sempre que tocamos a árvore

há uma folha que se desprende.


de Amadeu Baptista (Livro "O Bosque Cintilante")

"The Lady of Shalott" John William Waterhouse

domingo, 30 de agosto de 2009

A COR DE SEUS OLHOS, SONETO DE RONALDO CUNHA LIMA



Os teus olhos assustados
verdejantes, azulados,
matizaram-se no adeus.



A COR DE SEUS OLHOS
Ronaldo Cunha Lima


Eu nem sei se eram verdes ou azuis
os seus olhos de céu, arredondados,
os seus olhos de mar, aparentados
aos viscos verdejantes dos pauis.

Eu só sei que em meu ser tocavam blues,
despertando desejos desertados
dos mais pecaminosos pecados,
nos instantes das horas mais tafuis.

Eram verdes, quando ela me surgiu.
depois azuis, no instante em que sentiu
vontade de voar, de mar aberto,

Vi-os verdes e azuis, quando partiu.
Hoje não sei da cor. Ela me viu,
mas não me deixou vê-los mais de perto.





EM AVALON, UM POEMA DE DANIEL ALADIAH


Como o vento

abandonado nas árvores,

procurando o norte,

enclausurado

num tempo tão curto....



O mundo foge-me.

E eu,

num espaço interminável,

perco-me em ti,

e ouço o silêncio.



Livro "II Antologia de Poetas Lusófonos"
Foto "Love in Stone" de Subina Olga

sábado, 29 de agosto de 2009

AMOR BASTANTE, POEMA DE PAULO LEMINSKI (1944-1989)


AMOR BASTANTE
Paulo Leminski (1944-1989)


quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e o meu olho ganhasse
mil faces num só instante



basta um instante
e você tem amor bastante



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

DO AMOR, LIV, POEMA DE HILDA HILST (1930-2004)


DO AMOR
Hilda Hilst (1930-2004)

LIV

Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
DESEJO é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, um Caracol de Fogo.
DESEJO é uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante.
DESEJO é Outro. Voragem que me habita.




SEM TÍTULO, UM POEMA DE ANTÓNIO MARQUES LEAL


Lábios sedentos.

Lábios que pedem,

a uma simples paisagem

ou a mais uma folha da vida,

para que se cumpra o dever

de despertar a curiosidade de um querer

e de imaginar cenas

envolvidas em fumo branco e nuvem de cristais,

onde tudo se ouver e tudo se sente.

Mas tudo se esquece.



António Marques Leal (Livro "Deserto de Ecos")
Foto de Negateven "When my arms wrap you around" (Olhares.Com)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

VILA VIÇOSA, POEMA DE DANIEL COSTA






VILA VIÇOSA
Daniel Costa

Na princesa do Alentejo
Apenas uma vez passei
Perto da vila dos mármores
Depois bastante viajei
Foi berço de Florbela
Da Espanca, da poetisa
Que ali não homenageei
Em Borba, em Terrugem
No mesmo dia passei
Talvez por isso, pela beleza
Pelos mármores,
Que a outra 
Terrugem
Junto a Sintra tem
A Vila Viçosa
Apelidam de a Sintra
A Sintra do Alentejo também
Ainda era menor, o que tem?
Fizera vinte anos
Sem sentidos
Transportaram-me ao hospital
O de Elvas
O Militar Principal
Viajava individual
O majestoso palácio
Dos Duques de Bragança apreciei
As amargas e bonitas laranjas
Laranjeiras não esquecerei
Porém!...Florbela Espanca?
Que existira, nem sabia
Por isso não me curvei
Aos deuses e às musas
Perdão, sempre pedirei

http://casalfoz.blogs.sapo.pt

Orkutei.com.br


D.M Graphics




terça-feira, 25 de agosto de 2009

CURVAS DO AMOR EM POESIA, POEMA DE EVERSON RUSSO



CURVAS DO AMOR EM POESIA

Contornos que levam ao delírio
Maciez que arrepia ao toque
Delicado perfume natural
Cabelos jogados ao vento
Amor com aroma de litoral
Encanto que provoca desejo
A cada centímetro dessa geografia
Eu dedico os meus mais intensos beijos
Formas que desenham o amor
Encantam o infinito
Pinta no arco-íris a mais bela cor
Desenhando seu corpo mais bonito
Deitada nua êxtase e prazer
Sorrindo em poesia
Alegria de viver
Faz em meu universo
O mais perfeito verso
Sonho que encanta as estrelas que saltam no mar
Delírios de um sonho sem fim
Que me coloco a sonhar
Vôo livre com os pés no chão
Harmonia de sons e puro coração
Passando por todo seu corpo
Com destino à sua alma
Eu fecho os seus olhos
E lhe peço a serenidade e a paz
Do seu mundo inquieto
Que tanto me acalma.

By Everson Russo
evrediçõesmusicais®
Direitos autorais reservados lei 9.610 de 19/02/98
http://www.olivrodosdiasdois.blogspot.com/



La phrase...!
Recados Para Orkut



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ATALAIA, POEMA DE DANIEL COSTA


ATALAIA
Daniel Costa

Não sou voyaer
Não resisto de mansinho
Apreciar uma linda mulher
Naquela praia de brancas areias
Ali à beirinha do mar
Passava uma mulher bela
Não resisti
Fixei o olhar nela
A meus olhos
Que mulher bela!
Naquela praia
Elegante bonita singela
De atalaia, via-a como sereia
Oh que mulher bela!
Calma serena
Sonhava com a visão
Visão terrena
A mulher absorta passeava
Como numa verbena
O cheiro a maresia, um gosto
Na minha atalaia
Esquecia, passava a mulher
A mulher, tal faia
A despertar dalgum torpor
A mulher elegante bela
Será isto platonismo
Ternura ou platónico amor?

http://danielmilagredanieldaniel.blogspot.com

Desliguem o som e assistam ao vídeo, é muito bonito




terça-feira, 18 de agosto de 2009

HAICAIS DE GUILHERME DE ALMEIDA (1890-1969)

Haiku Painting, Sister E. Nemeth

HAICAIS
Guilherme de Almeida (1890-1969)

NOTURNO

Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.

MERCADO DE FLORES

Fios. Alarido.
Assaltos de pedra. Asfaltos.
E um lenço perdido.

EQUINÓCIO

No fim da alameda
há raios e papagaios
de papel e seda.

O SONO

Um corpo que é um trapo.
Na cara, as pálpebras claras
são de esparadrapo.

JANEIRO

Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

DE NOITE

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Desliguem o som e curtam o Noturno B flat minor, op. 9, n. 1, de Chopin, magistralmente interpretado por Maria João Pires.



QUANDO ELA FALA, UM POEMA DE MACHADO DE ASSIS


Quando ela fala, parece

Que a voz da brisa se cala;

Talvez um anjo emudece

Quando ela fala.



Meu coração dolorido

As suas mágoas exala

E volta ao gozo perdido

Quando ela fala.



Pudeste* eu eternamente

Ao lado dela, escutá-la

Ouvir a sua alma inocente

Quando ela fala.



Minha alma, já semimorta,

Conseguira o céu alçá-la

Porque o céu abre uma porta

Quando ela fala.

("The Love Letter" de Vermeer)

domingo, 16 de agosto de 2009

O BEIJA-FLOR, POEMA DE AUTA DE SOUZA (1876-1901)

Birdsong, Sophie Gengibre Anderson (1823-1903)

O BEIJA-FLOR
Auta de Souza (1876-1901)

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!

Um dia foi-se e não voltou... Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

Desligue o som e assista ao vídeo, vale a pena!


MELANCOLIA, UM POEMA DE REGINA REIS


Linda manhã de Sol

Lá e cá...

Melancolia

Cá e lá...

Duas vidas

Dois sonhos

Dois desejos

Diferentes desejos

Sonhos desiguais

Vidas iguais

Uma só melancolia



(Livro "II Antologia de Poetas Lusófonos)

("L'amour au papillon" William de Bouguerau)

sábado, 15 de agosto de 2009

MUSAS, POEMA DE DANIEL COSTA



MUSAS
Daniel Costa

Todo o poeta tem musas
Musas são modo de pensar
Não serão imagens difusas
Antigamente eram as sereias
Os bonitos luares
As luas cheias
A lua o homem devassou
Deixaria de alimentar veias
Ficou sempre a imagem
Como a das sereias
Nunca acabaram as musas
São imagens, são inspiração
Podem parecer difusas
Não inspiram paixão
São como serigaitas
Amor de comoção, platónico
Gosta-se delas, inspiram
São como um intróito
Passam cheias de graça
O nosso olhar enternecido
Não é chalaça
É uma musa que passa

htttp://danielmilagredanieldaniel.blogspot.com

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

BELA, SONETO DE SEVERIANO CARDOSO (SÉCULO XIX)

A Onda, William A. Bouguereau (1825-1905)

BELA
Severiano Cardoso (Século XIX)

O teu olhar imita o diamante,
Tuas faces são pétalas de Maio;
Cobre-te o sol com um xale cintilante,
Te encoifa a lua em lânguido desmaio.

Quisera um trono para dar-te em paga
De inspiração que acorda o teu olhar,
Por onde eu vejo se escoando a vaga
De um êxtase que pode me matar.

A vida inteira, oh! bela, o mar espraia
Algas e pérolas, conchas e corais...
Tua beleza, também nunca desmaia,

Tem a luz crepitante dos cristais!
Estrela do Oriente, contemplai-a,
E vede se mais bela existe, mais!

PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE, UM POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA


Para um Amigo Tenho Sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

(Livro "Viagem Através de uma Nebulosa")
(Foto "Amizades" Vitor Tripologos)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

À NOITE, SONETO DE FRANCISCA JÚLIA DE SILVA MUNSTER (1874-1920)

O Gelo flutua sob o Sol da Meia-noite, William Bradford (1823-1892)

À NOITE
Francisca Júlia de Silva Munster (1874-1920)

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra;
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite assim, de repouso e calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

AMOR, UM POEMA DE JOSÉ LUIS PEIXOTO


o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

("Polly" de Helen Allingham)

(Livro "A Casa, A Escuridão)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

SONETO DE MOACYR DE ALMEIDA (1902-1925)

A Caixa de Pandora, Howard. D. Johnson
Óleo sobre tela

SONETO
Moacyr de Almeida (1902-1925)

Eis a teus pés o oceano... É teu o oceano!
Deusa do mar, teu culto aclara os mares,
Esguio como um ciato romano,
Nervoso como a chama dos altares...

A alma das vagas, no ímpeto vesano,
Ajoelha ante os teus olhos estelares...
Eis a teus pés o oceano... É teu o oceano!
Cobre-o do verde sol dos teus olhares!

Sou o oceano... És a aurora! Eis-me de joelhos,
Ainda ferido nos tufões adversos,
Lacerado em relâmpagos vermelhos!

Sou teu, divina! E em meus gritos medonhos,
Lanço a teus pés a espuma de meus versos,
E as pérolas de fogo de meus sonhos!