sábado, 3 de outubro de 2009

O CÉU DESPENCA, INTENSO, CANTIGAS PRAIANAS II, Ó CORES VIRTUAIS QUE JAZEIS SUBTERRÁNEAS



O CÉU DESPENCA, INTENSO, CANTIGAS PRAIANAS II, Ó CORES VIRTUAIS QUE JAZEIS SUBTERRÁNEAS

O CÉU DESPENCA
Renata Cordeiro

chô, chuá
chove no Jaraguá
chove chuva
sem parar
inundando as marginais
inundando quem se atola
chove chuva no Tatuapé
e muito nego deixou o blindado
pra se locomover a pé...

chô, chuá
a cidade não pode pará
bradam aflitos
os capitães da indústria
a massa de formigas laboriosas
está desorientada
tem água na trilha
quem saiu e não chegou
quem foi e não voltou...

a chuva castiga os morros
levou cavaquinho e violão
invadiu a casinha da dona Maria
derrubou a árvore
arrastou cães e crianças
e implacável despenca seu choro
das nuvens ameaçadoras
que choram em convulsão

será que o pranto não passa?
E essa enxurrada que rola e arrasta
ladeira abaixo
passarela de bananas e melancias
trastes e troços
arrancados dos barracões...

chô, chuá
haja algodão
pra enxugar tanta lágrima!


CANTIGAS PRAIANAS II
Vicente de Carvalho

É tão pouco o que desejo,
Mas é tudo o que me faz falta,
Só por que a flor do teu beijo
Pende da rama tão alta...

Ninguém sabe o que suporta
O mar que chora na areia
Por essa tristeza morta
Das noutes de lua cheia:

Em baixo, o pranto das águas,
Em cima, a lua serena...
E eu, pensando em minhas mágoas
Ouço o mar, e tenho pena.

Meu amor é todo feito
De neblina tão cerrada,
Que por mais que em rosa espreito
Só te vejo a ti, mais nada.

Ai, minha sina está lida,
Meu destino está traçado:
Amar, amar, toda a vida
Morrer de não ser amado.


INTENSO
Marta VInhais

Duelo carregado de paixão

Floretes brilhantes na noite pesada


O vento, gigante


O trovão, ensurdecedo.

Comandante perfeito dos relâmpagos que rompem o breu

Assustando a chuva, que

desenfreadamente na vidraça se desfaz,
reclamando abrigo
Eis que o vento se aproxima e a enlaça,

derramando ternura


Uma ternura singela, surpreendente,


impensável de alguém tão duro e poderoso


Uma encantadora ternura que rasga a chuva em largos sorrisos,


a acalma


e finalmente de bater, 


aflita na vidraça deixa 



Ó CORES VIRTUAIS QUE JAZEIS SUBTERRÁNEAS
Camilo Pessanha

Ó cores virtuais que jazeis subterráneas,
- Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões , cromáticas vesánias -,
No limbo onde esperais a luz que vos baptize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água da clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus.

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda noite errais, doces almas penando,
E as asas na aresta dos telhados,
E no vento em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.



6 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Marta, acorda! Vem dizer-me se gostou!
Beijos,
Renata

Luciana disse...

Rê ótima postagem parabéns pra ti e pra Marta vocês duas sempre com poemas maravilhosos e sensiveis.
Grande beijo

Vivian disse...

...gostei do canto
da chuva,
que leva tudo, só não leva
a inspiração.

adorei o post lindo
como sempre.

beijos

Marta disse...

Está lindo, Renata...
Obrigada - a imagem está perfeita...
A escolha dos outros poemas também é óptima.
Beijos e abraços
Marta

Daniel Costa disse...

Renata

Adorei o teu poema, é daqueles, cuja toada vou lendo e trauteando muito baixinho. Para lizer que além de bem conseguido é interessante a forma.
Também apreciador do pensamento escrito da Marta.
Ambas optaram bem pelos poemas complementares.
Beijos,
Daniel

Nilson Barcelli disse...

Não sei comentar poesia... ainda que o seu poema e o da Marta mereçam bons comentários dada a sua qualidade.
Como não sei, digo apenas que gostei muito e que o arranjo gráfico, com as fotos respectivas, está muito bom.
Beijos para ambas as autoras.