segunda-feira, 26 de outubro de 2009

MESTRE, POEMA DE FERNANDO PESSOA, HETERÔNIMO RICARDO REIS


MESTRE
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


Mestre, são plácidas

Todas as horas

Que nós perdemos,

Se no perdê-las,

Qual numa jarra,

Nós pomos flores.

Não há tristezas

Nem alegrias

Em nossa vida.

Assim saibamos,

Sábios incautos,

Não a viver,

Mas decorrê-la,

Tranquilos, plácidos,

Lendo as crianças

Por nossas mestras,

E os olhos cheios

De Natureza ...

À beira-rio,

À beira-estrada,

Conforme calha,

Sempre no mesmo

Leve descanso

De estar vivendo.

O tempo passa,

Não nos diz nada.

Envelhecemos.

Saibamos, quase

Maliciosos,

Sentir-nos ir.

Não vale a pena

Fazer um gesto.

Não se resiste

Ao deus atroz

Que os próprios filhos

Devora sempre.

Colhamos flores.

Molhemos leves

As nossas mãos

Nos rios calmos,

Para aprendermos

Calma também.

Girassóis sempre

Fitando o sol,

Da vida iremos

Tranquilos,tendo

Nem o remorso

De ter vivido

D.M Graphics


5 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Poema de Fernando Pessoa encarnado por um dos seus múltiplos heterônimos em nosso Blog.
Renata Cordeiro

Vivian disse...

...nada melhor que começar
a semana com Fernando Pessoa
nos ensinando a poemar a vida,
esta escola que tanto nos ensina
sem distinção.

façamos então deste caminho
um caminho de flores a nos
enfeitar os olhos da alma,
esta que nos leva em constante
equilíbrio na busca de ser feliz!

beijo, querida!

Marta disse...

Uma óptima escolha, Renata...
Gostei imenso...
Beijos e abraços
Marta

Daniel Costa disse...

Renata

De Fernando Pessoa, em si mesmo e nos seus heterónimos, é sempre um invulgar poeta, um dos grandes da nossa língua. Embora possua toda a poesia do grande poeta, não, me recordo do poemal.
Beijos,
Daniel

Graça disse...

Fernando Pessoa ortónimo ou heterónimo é sempre único, porque só ele foi o Poeta... [isto sou eu, amando o meu Poeta :)]


Beijo imenso de carinho, querida Renata