terça-feira, 8 de setembro de 2009

ACORDEI, POEMA DE MARTA VINHAIS



ACORDEI


“A boêmia, a boêmia
Isso significava que tu eras linda
A boêmia, a boêmia
E todos tínhamos idéias geniais”

Acordei.

Com esta música a vasculhar a minha memória,

a relembrar o timbre especial da voz de Charles Aznavour,

misturada com o suspiro deliciado da minha Mãe.

Apaixonada pelo homem e pela canção,

vejo-a ainda sentada à sombra da árvore,

longe do sol,

da areia

onde eu brincava com os meus baldes,

as minhas conchas,

em batalhas loucas com o mar.

Porquê falar agora de Aznavour,

que, na altura, nada me dizia??

Apeteceu-me,

mergulhar no ambiente boémio da canção e

oublier l'hiver.


Anjos-7444

***


A BOÊMIA
Jacques Plante/Charles Aznavour

Falo-lhes falo de um tempo
Que os que têm menos de vinte anos
Não devem conhecer
Montmartre naquele tempo
Pendurava os seus lilases
Bem debaixo das nossas janelas
E se o tão humilde quarto mobiliado
Que nos servia de ninho
Não tinha bom aspecto
Pouco importa
Pois, foi nele que nos conhecemos
A boêmia, a boêmia,
Isso significava que éramos felizes
A boêmia, a boêmia
Só comíamos um dia em dois
Nos cafés vizinhos
Éramos mais uns daqueles
A esperar a glória
E, apesar da miséria,
De barriga vazia,
Não deixamos de crer na glória
 Quando, em algum barzinho,
Diante de uma comida quente,
Pegávamos a toalha
E recitávamos versos
Agrupados ao redor do aquecedor,
Esquecendo-nos do inverno,
A boêmia, a boêmia
Isso significava que tu eras linda
A boêmia, a boêmia
E todos tínhamos idéias geniais
Era comum me acontecer
Diante do cavalete,
De passar as noites em branco
Retocando o desenho
Da linha de um seio
Da curva de uma anca
E, isso, só de manhã
Quando, enfim, nos sentávamos
Diante de um
café-crème
Esgotados, porém radiantes,
Tínhamos de nos amar
E amar a vida
A boêmia, a boêmia
Isso significava que tínhamos vinte anos
A boêmia, a boêmia
E vivíamos conforme o tempo
Qualquer dia desses
Vou dar um passeio
Pelo lugar onde eu morava
Já não o reconheço
Nem os muros, nem as ruas
Que viram a minha juventude
E do alto de uma escadaria
Procuro o ateliê
De que nada subsiste
Com a sua nova decoração
Montmartre parece triste
E os lisases morreram
A boêmia, a boêmia,
Éramos jovens,
Éramos loucos,
A boêmia, a boêmia
Isso já não significa absolutamente nada.







5 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Marta, o seu poema está aqui, embelezando o nosso espaço. É lindo!
Parabéns!
Beijos,
Renata

Marta disse...

Renata, nem sei o que dizer...
Adoro ouvir este homem cantar...
Tem qualquer coisa.......
Obrigada
Beijos e abraços
Marta

cristal de uma mulher disse...

As flores exalam o perfume e o perfume é a canção...beijos amiga

Daniel Costa disse...

Renta

Um poema muito interessante, em jeito de monólogo, de Marta Vinhais.
Depois a poesia de Jacques Plante / Charles Aznavour a dispensar credênciais. Ainda as magnificas fotos postadas, até a cor do template, que sempre apreciei (nunca fiz referência), tornam o conjunto do post belo.
Beijos,
Daniel

cristinasiqueira disse...

Belíssimo post.A poesia,as composições do tempo em arte,a poesia de Marta,a música de Aznavour,
um tempo...a boemia,a boemia.
Vivi noites e dias,o café da madrugada,Paris...a boemia.Já fui a menina com baldes e pázinhas brincando na areia.

Venha me visitar
www.cristinasiqueira.blogspot.com

Com admiração,

Cris