quinta-feira, 30 de julho de 2009

PRESENÇA, UM POEMA DE MÁRIO QUINTANA


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


(Foto "Ponte" de Miguel Afonso, Olhares)

2 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Lindo, Marta, Quintana é sempre lindo.
Um beijo e obrigada por me comentar,
Renata

Daniel Costa disse...

Dizer que o poema emana uma ideia de profundidade, tratando-se do autor, Mário Quintana, não passaria de uma redundância.
Mas que convêm interpretar, bem os grandes nomes da poesia, convém.
Daniel