quinta-feira, 26 de novembro de 2009

TODO O TEMPO DO MUNDO CARLOS TÊ E RUI VELOSO



TODO O TEMPO DO MUNDO

Composição: Carlos Tê/Rui Veloso



Podes vir quando quiseres

Cá estarei para te ouvir

O que tenho para fazer

Posso fazer a seguir

Podes vir quando quiseres

Já fui onde tinha que ir

Resolvi os compromissos

Agora só te quero ouvir

Podes-me interromper

e contar a tua história

Do dia em que aconteceu

A tua pequena glória

O teu pequeno troféu

Todo o tempo do Mundo

para ti tenho todo o tempo do Mundo

todo o tempo do Mundo

Houve um tempo em que julguei

Que o valor do que fazia

Era tal que se eu parasse

o mundo à volta ruia

E tu vinhas e falavas

falavas e eu não ouvia

E depois já nem falavas

E eu já mal te conhecia

Agora em tudo o que faço

O tempo é tão relativo

Podes vir por um abraço

Podes vir sem ter motivo

Tens em mim o teu espaço

Todo o tempo do Mundo

para ti tenho todo o tempo do Mundo

Todo o tempo do Mundo


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

GENTE PERDIDA MAFALDA VEIGA



GENTE PERDIDA

Mafalda Veiga


Eu fui devagarinho


Com medo de falhar


Não fosse esse o caminho certo


Para te encontrar


Fui descobrindo devagar


Cada sorriso teu


Fui aprendendo a procurar


Por entre sonhos meus


Eu fui assim chegando


Sem entender por quê


Já foram tantas vezes tantas


Assim como esta vez


Mas é mais fundo o teu olhar


Mais do que eu sei dizer


É um abrigo pra voltar


Ou um mar para me perder


Lá fora o vento


Nem sempre sabe a liberdade


A gente finge


Mas sabe o que não é verdade


Foge ao vazio


Enquanto brinda, dança e salta


Eu trago-te comigo


E sinto tanto, tanto a tua falta


Eu fui entrando pouco a pouco


Abri a porta e vi


Que havia lume aceso


E um lugar pra mim


Quase me assusta descobrir


Que foi este sabor


Que a vida inteira procurei


Entra a paixão e a dor





sábado, 21 de novembro de 2009

FALA, POEMA DE ORIDES FONTELA


FALA
Orides Fontela

Tudo
será difícil de dizer
a palavra real
nunca é suave

Tudo será duro
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser

Tudo será
capaz de ferir será
agressivamente real
Tão real que nos despedaça

Não há piedade nos signos
e nem no amor o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere

(Toda palavra é crueldade)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CRIANÇA, UM POEMA DE CECÍLIA MEIRELES



CRIANÇA

de Cecília Meireles



Cabecinha boa de menino triste

de menino triste que sofre sozinho

que sozinho sofre - e resiste



Cabecinha boa de menino ausente

que de sofrer tanto se fez pensativo

e não sabe mais o que sente


Cabecinha boa de menino mudo

que não teve nada que não pediu nada

pelo medo de perder tudo



Cabecinha boa de menino santo

que do alto se inclina sobre a água do mundo

para mirar seu desencanto



Para ver passar numa onda lenta e fria

a estrela perdida da felicidade

que soube que não possuiria

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

MAGIA, PENSANDO EM NOSSO FUTURO


MAGIA, PENSANDO EM NOSSO FUTURO

Adoraria ser pintor




Em minha tela




Reteria as cores do amor




As cores que gostaria para o mundo




Não me importaria ser escultor




Esculpiria um mundo




Mais luminoso mais sedutor




Evitaria que se tornasse imundo




Apenas houvesse lugar ao amor




Não me assumo como poeta




Gostaria contudo




Que a paz fosse completa




Que entre os homens nunca




A guerra fosse meta




Se fiz coisas inauditas




Porque não ajudaria




A acabar com permissões esquisitas?




Ajudar a que no mundo




Apenas houvesse coisas bonitas




Decretar delegar as feias




Para outros mundos




Para outras teias




Que o amor saia vencedor




Onde para todo o sempre se ergam




Tendas sem fendas de amor




De magia de amor



por Daniel Costa


http://danieldanielmilagredanielblogspot.com/



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

LONDRES LONDRES


LONDRES LONDRES

Caetano Veloso

Vagueio dou voltas e voltas sem destino

Estou só em Londres e Londres é tão agradável

Atravesso as ruas sem medo

Todos deixam o caminho livre

Não conheço ninguém aqui para dizer olá

Estou só em Londres sem medo

Vagueio dou voltas e voltas sem destino

E os meus olhos buscam discos voadores no céu

Domingo segunda outono passam por mim

E as pessoas se apressam em paz

Um grupo se aproxima de um policial

Ele parece tão disposto em atendê-las

Ao menos é bom viver e eu concordo

Ele parece tão atencioso ao menos

E é tão bom viver em paz

E domingo segunda anos e eu concordo

E os meus olhos buscam discos voadores no céu

Não escolho rosto para olhar não escolho caminho

Ocorre que estou aqui e tudo bem

Grama verde olhos azuis céu cinza

Deus abençoe a silente dor e a felicidade

Vim para dizer sim e o disse

E os meus olhos buscam discos voadores no céu

Tradução de Renata Cordeiro


terça-feira, 10 de novembro de 2009

NÃO CONHEÇO NADA DO PAÍS DO MEU AMADO, UM POEMA DE ANA PAULA RIBEIRO TAVARES




NÃO CONHEÇO NADA DO PAÍS DO MEU AMADO



Ana Paula Ribeiro Tavares



Não conheço nada do país do meu amado


Não sei se chove, nem sinto o cheiro das laranjas.


Abri-lhe as portas do meu país sem perguntar nada


Não sei que tempo era


O meu coração é grande e tinha pressa.


Não lhe falei do país, das colheitas, nem da seca


Deixei que ele bebesse do meu país o vinho, o mel e a carícia


Povoei-lhe os sonhos de asas, plantas e desejo


O meu amado nada me disse sobre o seu país.


Deve ser um estranho país


o país do meu amado


pois não conheço ninguém que não saiba


a hora das colheitas


o canto dos pássaros


o sabor da sua terra de manhã cedo.


Nada me disse o meu amado


Chegou


Mora no meu país não sei por quanto tempo


É estranho que se sinta bem


e parta.


Volta com um cheiro de país diferente


Volta com os passos de quem não conhece a pressa

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sábado, 7 de novembro de 2009

ANJO



ANJO
Sarah Mclachlan


Gastas o tempo à espera da segunda chance

Da oportunidade que tudo afastaria em definitivo

Há sempre um motivo

Para não te sentires bem o bastante

E torna-se mais difícil no fim do dia

Preciso de alguma distração

Oh, belo descanso

A lembrança vaza das minhas veias...

Deixa-me esvaziar  

Não pesar 

Quem sabe 

Eu encontre alguma paz 

Esta noite

Nos braços de um anjo voa para longe

Deste escuro e frio quarto de hotel

E da imensidade que tanto temes

És arrancado das ruínas do sono silente

Estás nos braços de um anjo

Que encontres algum conforto 

Tão cansado da linha reta

Para todo lugar que te voltas

Há abutres e ladrões às suas costas

E a tempestade contínua

Despenca num torvelinho

Insistes em construir a mentira

Que inventas por inveja do que não tens

Tanto faz escapar pela última vez

É mais fácil acreditar 

Nesta doce loucura

Nesta gloriosa tristeza 

Que me deixa pasmada

Estás nos braços de um anjo

Que encontres algum conforto

Tradução por
Renata Cordeiro







sexta-feira, 6 de novembro de 2009

RETRATO, POEMA DE MIGUEL TORGA



RETRATO




O meu perfil é duro como o perfil do mundo.


Quem adivinha nele a graça da poesia?


Pedra talhada a pico e sofrimento,


É um muro hostil à volta do pomar.


Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto


Faz um poema doce e desejado;


Mas quem passa na rua


Nem sequer sonha que do outro lado


A paisagem da vida continua.



Miguel Torga
Coimbra, 11 de Março de 1952